Recordações II

                                                       Redação

                         Dia de Chuva ( África)

Nada mais aborrecido para o citadino elegante que um dia de chuva; nem lhe digam que ela beneficia a lavoura porque dia sem sol já não é do seu agrado.
Estamos ainda na cama e ouvimo-la a cantar no telhado, ao princípio, numa toada suave depois em verdadeiras cataratas. Mentalmente, fazemos o nosso plano: mais tempo para a viagem, guarda-chuva em ação e alguma capa impermeável que nos defenda a pele de tão incómoda visita.
Lá fora, a imagem é divertida. Todos se acomodam debaixo de equilíbrio com o guarda-chuva soprado pelo vento. Involuntariamente tocamos nalgum transeunte que se aflige por coisa tão insignificante. Os carros atiram jorros de água sobre os pobres peões e atrás das portas, os guarda-chuvas são nascentes de regatinhos.
Meia hora depois, o sol rompe através das nuvens e o inverno transforma-se em sufocante verão.
Surpresas de África.

Fernando Lopes Rosa

Recordações

                                             Redação

             “O que eu vejo da janela do meu quarto”

Debruçado na janela do meu quarto abro bem os olhos para ver o que vai lá fora: longínquos um par de namorados ciciam palavras doces, adivinhando um mundo que ainda lhes não pertence.
Quem me dera ser como eles, entregue à mesma irresponsabilidade voando muito alto, longe da realidade.
Subindo a calçada, uma velhinha trôpega estende a mão à caridade e eu fico-me a pensar como a sociedade é tão egoísta que não deixa a cada pessoa o suficiente para viver...”uma esmolinha por amor de Deus”! Sim, quem não lhe dará alguma coisa daquilo que sobra para que a velhinha não tenha fome?
Dobrando a esquina da rua a velha presunçosa, coberta de adornos e de pó de arroz que nem assim consegue esconder os muitos anos que roubaram a sua beleza. Só o homem sabe mentir, fingindo ser aquilo que não é. Fazendo de agruras e sempre atrás do arco, criando problemas de trânsito lá vai o garoto descalço mas feliz, senhor de um reino que é a rua de um cetro que é o seu arquinho.
Que saudades do tempo em que também assim fui.
E tantas coisas mais eu vejo da janela do meu quarto neste palco imenso que é o mundo.

*Fernando Lopes Rosa*